Distanciamento social

1. Primeiro chamaram-lhe distanciamento social, depois distanciamento físico. Em rigor o primeiro termo era mais correto, pois o distanciamento físico, como rotina, é distanciamento social. De modo radical, quando nos confinamos, fechamos em casa e substituímos estudo e trabalho em contexto presencial por estudo à distância e teletrabalho. De modo mais mitigado, quando usamos máscara e evitamos a proximidade de terceiros. É social e não apenas físico porque o distanciamento transforma, com consequências, os modos da nossa interação com os outros.

2. O estudo da interação social, em especial no plano comunicacional, é um dos objetos mais importantes da sociologia. Como foi demonstrado por vários autores, a interação presencial é um mecanismo fundamental para a resolução dos problemas de interpretação que existem em qualquer processo de comunicação, para construir confiança social, a pertença a grupos ou as identidades individuais e coletivas, bem como para reforçar o sentido de correção moral nos comportamentos individuais. Em suma, para construir sociedade. Todos estes mecanismos não funcionam com a mesma eficácia quando a comunicação é mediada ou empobrecida pelo uso, por exemplo, de máscaras.

3. Pergunta óbvia. O que acontece em todos os domínios referidos no parágrafo anterior quando abolimos ou empobrecemos a interação presencial? Que consequências terá o distanciamento social, como rotina, para a resolução dos equívocos comunicacionais, para o estabelecimento da confiança recíproca ou para o controlo moral da ação individual? São perguntas que temos que fazer tendo em conta que estão em causa mecanismos fundamentais para o funcionamento das nossas sociedades. Nomeadamente porque, tanto quanto hoje se sabe, vamos ter que viver com modalidades de distanciamento social de intensidade variável nos próximos anos. Ora, as decisões sobre essa intensidade, em cada momento, terão que ter em conta todo o conhecimento disponível sobre as suas consequências, intencionais e, sobretudo, não intencionais.

4. Randall Collins é um dos sociólogos contemporâneos que mais se distinguiu no estudo da interação social. Tem um blogue, The Sociological Eye, em que escreve sobre os temas que está a investigar. O seu último texto é sobre os efeitos do confinamento social na resposta à pandemia da covid-19, com o título “Sociologia das máscaras e do distanciamento social”. Depois de discutir os modos de distanciamento em público, os efeitos do confinamento sobre a solidariedade familiar, o ensino à distância, o teletrabalho, a “fadiga do Zoom” e a ação coletiva, conclui: “as autoridades políticas e os desenvolvimentos tecnológicos podem forçar as pessoas a renunciar a muita interação presencial. As pessoas são culturalmente bastante maleáveis, mas se isso significa que, depois de um período de adaptação, podemos habituarmo-nos a quase tudo, não quer dizer que o possamos fazer sem pagar um preço. Se formos privados de interações presenciais, é provável que fiquemos mais deprimidos, menos enérgicos, menos solidários com os outros, mais ansiosos, mais desconfiados e, talvez, mais hostis”. Leitura recomendada.

Um pensamento em “Distanciamento social”

  1. Eu sinto esta interrupção de beijos e abraços como uma violência que me imponho a mim e aos meus filhos. Porque só entre nós é que podia haver estes mimos. Todos os outros ficam de fora. Aos poucos fui baixando a guarda por ouvir as sensatas e os sensatos que mais prezo. Agora tenho menos medo e mais alegria. Cumprimentos ao sensato.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s