Duas mortes que me interpelam

Uma jovem foi assassinada por um jovem que confessou o crime. Tudo o que sabemos aponta para um crime passional, cujos detalhes me não interessam. Preocupam-me os crimes passionais e a violência de género.

O jovem, que confessou o crime, morreu na cadeia poucas semanas depois, em circunstâncias que não conheço. Mas não consigo imaginar um cenário aceitável para este desfecho. Se foi suicídio, como pode o sistema prisional não ter colocado o jovem numa vigilância para esta eventualidade, sabendo-se que tinha confessado e sendo público e notório que estava instável? Se foi colocado nessa vigilância, como pôde ela não ter funcionado? Se foi qualquer outra coisa que aconteeu, como é possível ter acontecido? Preocupa-me que se morra nas cadeias. Mas não é esse o tema deste texto.

Estes dois jovens eram estudantes da escola em que entrei em 1983 como aluno e de que, a bem dizer, nunca mais saí. Passei por uma outra como professor, fui dar uma voltinha à política, estive nos últimos quinze anos, fora e dentro, apenas a tempo parcial. Mas é a casa que sinto como minha, como sociólogo, como professor, como cidadão. Estes dois jovens podiam ter sido meus alunos num dos meus trinta anos de docência.

Para o espaço de liberdade e responsabilidade que quero que o ISCTE seja, este não é um assunto menor para anotar e esquecer. Pouco importa se as mortes ocorreram fora do perímetro da escola. Têm que ser vistas como parte de um fenómeno de violência de género nos campus universitários. Esta jovem morreu no campus, onde quer que tenha sido agredida, morreu na universidade e porque era estudante dela, num quadro de violência perpetrada por um colega. Este caso foi no ISCTE, mas não é sequer um problema desta escola, é uma questão que deve fazer refletir todas as Universidades e Institutos Politécnicos. Não podemos fechar os olhos.

Seria fácil empurrar o caso para uma patologia individual, que também deve ter incluido. A tal nódoa que cai no pano. Mas estes crimes não nascem no vazio, saem de uma cultura que temos o papel e o dever moral de combater com medidas específicas e rapidamente adotadas.

Só fazendo-o estaremos à altura da tremenda lição de dignidade humana que desde o primeiro dia nos deu a mãe da jovem vítima. No modo como mostrou da sua dor o que era absolutamente necessário para que nos sobressaltássemos, mantendo em privado o seu sofrimento inimaginável. Agora também na sua capacidade de mostrar compaixão pelo agressor que acabou por ser também vítima de si próprio. Na firmeza com que não deixa que nenhum instinto de vingança lhe retire a clarividência.

A clarividência dos que sofrem é uma das chaves para que uma sociedade se mantenha livre. Mas uma chave que só funciona se as instituições estiverem à altura da dignidade dessa clarividência. Refletir sobre as mortes de Beatriz e agora também de Ruben e agir para que os fatores que as desencadearam não se repitam é, perdida a possibilidade de fazer justiça a este caso concreto, a forma que nos resta de garantir que a justiça não morre.

Só assim estaremos à altura do sofrimento que se vive à volta da casa de liberdade, dignidade, cidadania e saber que o ISCTE é.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s