Branca por fora, amarela por dentro e cheia de pelos

1. Os cientistas sociais não têm de ser eunucos políticos. Por exemplo, o João Teixeira Lopes é conhecido como sociólogo e como militante/dirigente do Bloco de Esquerda. Ou o Rui Pena Pires, eu: sociólogo e militante/dirigente do Partido Socialista. Ou ainda o David Justino, sociólogo e militante/dirigente do Partido Social Democrata. São filiações públicas assumidas pelos próprios de modo transparente. Por isso as nossas intervenções como cientistas sociais podem ser escrutinadas em função das nossas preferências político-partidárias.

2. Riccardo Marchi, politólogo, tornou-se recentemente conhecido como investigador sobre o partido Chega. Porém, em entrevista ao Público, não se comporta como investigador mas como defensor sistemático do Chega e de André Ventura. É inaceitável um politólogo simpatizar com o Chega? Não, mas não deve escamotear as suas preferências e fazer-se passar por investigador desinteressado de um fenómeno a que seria estranho. Em resumo, a influência das suas preferências político-partidárias sobre o seu trabalho de investigação não pode ser escrutinada. Ao contrário do que acontece no meu caso, no do João Teixeira Lopes ou no do David Justino, para continuar apenas com estes três exemplos.

3. Na referida entrevista, Riccardo Marchi apresenta-nos o notável método de explicação que lhe permite vestir a pele do defensor do Chega que se apresenta como investigador sem preferências político-partidárias. Em que consiste o método? Em transformar em explicações científicas o discurso do seu objeto. Exemplo: o Chega é racista? Não. Porquê? Porque Ventura diz que não é. Citando, “Os dirigentes do Chega e o próprio não consideram”. O Chega é um partido de extrema-direita que integra hoje setores implicados em ações de violência política? Não. Porquê? Porque Ventura disse que não: “André Ventura disse claramente que não tolerava pessoas de extrema-direita que estivessem envolvidas em casos de violência política ou de ações violentas”. Afinal é fácil fazer investigação: basta perguntar.

4. E chegamos ao título: qual é a coisa, qual é ela, que é branca por fora, amarela por dentro e cheia de pelos? Não sabe? Fácil, é o ovo, os pelos são para disfarçar. Ironias à parte, há no trabalho científico e na vida académica fronteiras deontológicas e mínimos de rigor metodológico que é necessário preservar.

Um pensamento em “Branca por fora, amarela por dentro e cheia de pelos”

  1. É uma prática muito comum, praticada por muitos camaleões, que pululam por tudo o que é espaço mediático. Sem qualquer declaração de interesses, dos assuntos em que se pronunciam, dão as suas opiniões candidamente omitindo os interesses ocultos das suas mensagens. São os intervenientes políticos encapotados, que temos, de desmascarar. Só assim o ar politico será mais respirável.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s