Homicídio de uma cidade

1. Os populistas não inventam os problemas que prometem resolver. Torcem os problemas, dão-lhes respostas indecorosas, mas não os inventam. E é porque não os inventam que, de vez em quando, têm sucesso. Um sucesso duplo. Sucesso na mobilização das suas bases de apoio, sucesso na marcação da agenda política, de múltiplas formas. Por exemplo, focando a nossa atenção nuns problemas em detrimento de outros ou dando mau nome a problemas reais, reduzindo o exercício da racionalidade no seu tratamento.

2. A difícil ponderação racional da questão do desconfinamento é um bom exemplo dos efeitos do mau nome que os populistas conseguem colar a alguns problemas. Outro bom exemplo é a (não) discussão sobre a China. Trump diaboliza a China como parte da estratégia populista clássica de criação do inimigo externo contra quem se mobilizam as emoções nacionalistas. Mas a China, ou melhor, o atual regime chinês, é um verdadeiro problema. O sucesso na construção do primeiro regime totalitário de base tecnológica, aliado aos sucessos que teve no desenvolvimento económico do país, estiveram na origem de um modelo político que é ativamente promovido pelo regime em todo o mundo. Traços essenciais do modelo? As teses da dispensabilidade da democracia e as vantagens do controlo total das vidas dos cidadãos, como mecanismos de gestão do desenvolvimento económico sem os sobressaltos e crises que são associados ao exercício da liberdade e, em particular, ao exercício regulado do conflito.

3. O modelo tem seduzido políticos e intelectuais por esse mundo fora, especialmente nos países em desenvolvimento (voltarei a este tema). E tem prosperado com base no silêncio cúmplice de governos democráticos, no desinteresse das opiniões públicas e na quase ausência, enquanto tema de protesto, da ação dos movimentos cívicos. Mesmo quando da propaganda se passa à imposição, pela força. Como hoje, em Hong Kong.

4. Hong Kong é uma das cidades mais fascinantes que já conheci. Uma cidade cosmopolita, uma economia dinâmica e um território de liberdade. Com defeitos, certamente, como a elevada desigualdade que convive com o dinamismo económico. A imposição chinesa que está a destruir Hong Kong não se faz, porém, contra esses defeitos, que não a distinguem da China, mas contra a liberdade e o estado de direito que, esses sim, distinguem radicalmente a cidade da República Popular da China.

5. A invasão chinesa, que é o que verdadeiramente está acontecer, dispensa os tanques de Praga ou de Tiananmen, substituídos pela vigilância eletrónica e a repressão seletiva de alvos bem identificados. A repressão de movimentos, organizações e pessoas que, ainda recentemente, reforçaram a sua legitimidade democrática vencendo as últimas eleições no território. Repressão feita à luz do dia mas sem a espetacularidade dos tanques. E, também, sem a reação de governos democráticos manietados pelos interesses das suas relações com Pequim e sem a reação cívica que noutros casos seria imediata. Assim se assiste ao homicídio, em direto, de uma das grandes cidades mundiais. Que merecia mais, de quem verdadeiramente preza o valor da liberdade.

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