Esquisitices de um democrata radical

O Público divulga que o governo vai lançar um concurso para projetos científicos de monitorização do discurso de ódio e que estes se inserem numa iniciativa de prevenção e repressão desse discurso.

Seja qual for a expressão que vier a seguir à palavra discurso, não me agrada que seja acompanhada da palavra repressão. Aliás, também a associação da investigação científica à repressão de discursos me causa profundos receios. As universidades não existem para serem auxiliares do policiamento das palavras.

A fronteira entre o discurso e a prática não é uma questão menor. Leiam o que o Rui Pena Pires escreveu a abrir este blogue sobre o racismo e apliquem o que diz sobre preconceito e comportamento a toda esta questão.

Há ainda que ter presente o velho princípio da precaução. Em matéria de repressão de discursos, de ideias e de pensamento, sabemos como as coisas começam, nunca sabemos como acabam. E já acabaram mal muitas vezes na história e mesmo em democracias liberais de créditos formados.

Acredito que muitos leitores incomodados pelo discurso de ódio achem ingénua e absurda a minha distância face a iniciativas de policiamento das palavras. Afinal todos nós já lemos impropérios, insultos, falsidades, propagação de mitos, com intenções políticas, filosóficas, religiosas, de género, raça, orientação sexual, etc. ou mesmo só insultos pessoais, que preferíamos não ver, não ouvir e não ler.

Os que partilham o meu modo de ver o mundo gostariam que não houvesse discursos fascistas, racistas, fundamentalistas religiosos e outros. Muitos outros, que provavelmente não me leem, gostariam que não houvesse discursos comunistas, maçons, de ativistas gay e por aí fora.

Quer queiram quer não, ao monitorizar para reprimir os discursos, os democratas estão ao mesmo nível dos que os acusam de marxismo cultural ou de ideologia de género e não escondem que se tivessem poder os queriam calar.

Pode parecer esquisitice de um democrata radical, mas reprimir o discurso pôe os democratas na posição moralmente equivalente dos que pretendem combater. E eu defendo a superioridade moral da democracia.

PS. Não pensem que o discurso de ódio não me incomoda. Muito provavelmente já fui forçado a conviver com ele, incluindo o que é dirigido especificamente a mim e/ou embrulhando-me em categorias horrendas, bastante mais que a média dos leitores. Ainda recentemente o líder da extrema-direita o fez publicamente numa rede social. E preferia que tal discurso não existisse. Só acho que os democratas têm que pensar bem o que estão prontos a aceitar pôr depois da palavra repressão. E repressão não cola com discurso.

Um pensamento em “Esquisitices de um democrata radical”

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