O Papa Francisco, Ataturk e Erdogan em Istambul e em Córdoba

Por toda a cristandade, como antigamente se dizia, há antigas mesquitas transformadas em catedrais ou, se forem de construção modesta, em igrejas. Em muitas zonas hoje islâmicas, ocorre o inverso e encontramos antigas igrejas transformadas em mesquitas. Nada de surpreendente. Foi assim por um milénio e não apenas entre cristãos e islâmicos, também com judeus e com várias igrejas cristãs entre si. O século XX trouxe-nos a laicidade.

Foto: Harild Wagen/Wikimedia

Sobre as ruínas do Império Otomano, Kemal Ataturk construiu um Estado-nação, de território bem mais circunscrito, latinizou e desarabizou a língua nacional, proibiu trajes tradicionais, ocidentalizou o país.

Nesse processo quis dar sinais interiores e exteriores de que o seu país permitia a liberdade religiosa, quis sobretudo conter o poder das autoridades religiosas e submetê-lo ao Estado. Nesse contexto teve o gesto de grande impacto simbólico de retirar a Hagia Sophia da égide das autoridades religiosas e transformá-la em museu, retirando-lhe a função de culto.

Erdogan, como sabemos, tem feito tudo para ser visto como o segundo pai da nação turca. Não renega oficialmente o primeiro. Joga ao gato e ao rato com o que ele ainda representa para o país. Na noite do famoso golpe de 2019, quando apareceu em público para proclamar a sua vitória, fez-se filmar de ângulos em que a fotografia de Ataturk estivesse bem visível. Mas quer substituir o seu papel como chefe de estado de referência do país e representa a vários títulos, o seu oposto.

O seu projeto, a que alguns chamam neo-otomano não é virado para o ocidente mas para o médio-oriente, assumindo uma região de influência que se estende do mediterrâneo ao oceano índico e que inclui a costa leste de África e a península arábica. No plano interno, a laicidade é substituida por apoios à islamização. A classe de pequenos e médios empresários em que se apoia, os “tigres da Anatólia”, é constituida por homens pios. A educação religiosa no ensino secundário (alternativa ao ensino técnico e liceal) cresce exponencialmente. Constroem-se mesquitas a um ritmo sem precedentes no último século. Todas as oportunidades que surgem são aproveitadas para, de modo mais ou menos subtil, juntar uma agenda islâmica à agenda nacionalista.

Neste contexto, Erdogan teve um gesto de elevado valor simbólico, ao iniciar a batalha pela possibilidade da mesquita a que chamamos catedral de Santa Sofia ser usada para o culto. No plano interno deu um sinal da sua determinação em contrariar o laicismo de Ataturk. E disse ao mundo externo do Ocidente que não se preocupa com a sua reação.

O Papa Francisco deu voz à tristeza da cristandade com este retrocesso num lugar de significado religioso para cristãos e muçulmanos. Em Istambul, o Papa comunga das opções de Ataturk.

Mas em Córdoba, há uma mesquita transformada na reconquista em igreja católica. Nem o franquismo nem a demcoracia espanhola nunca a tornaram um museu retirado do culto. Hoje, 14 de julho de 2020, há missa às 9h30 da manhã. Em Córdoba, a prática do culto dos vencedores não entristece o Papa. E, a haver alguma comunhão, seria com Erdogan, numa cerimónia multiconfessional, que o próprio, quando tem conveniência política nisso, também patrocina.

Foto: Tristan Mimet, Wikimedia

Estar com Ataturk em Istambul e com Erdogan em Córdoba é fácil. Mais dificil seria estar com Ataturk dos dois lados. Nem devolver Santa Sofia ao culto muçulmano nem manter Córdoba no culto católico. Dar a ambas o estatuto de museu dedicado ao encontro de culturas seria uma forma de honrar a história partilhada de cristão e muçulmanos dos dois lados do Mediterrâneo. E ninguém teria motivos para ficar triste.

2 opiniões sobre “O Papa Francisco, Ataturk e Erdogan em Istambul e em Córdoba”

  1. Comento com “pinças”, não por tua causa mas por deferência para com os teus leitores. Com toda a certeza que conheces melhor o contexto turco do que eu. E terás mais capital cultural e experiência biográfica do que eu para discutir a “ideologia” do “património”. Como tal curvo-me face à “derrota” antecipada. Mas, caramba, até googlei para confirmar, a mesquita/catedral de Cordoba foi sagrada catedral em 1236. Ou seja, não precisas de escrever coisas destas. E nós não as merecemos.

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  2. Os dois casos que citas nao sao comparáveis porque em Cordoba a mesquita foi erigida sobre um templo cristao.
    Possivelmente existirão outros casos nao o contesto Paulo mas deverias ter dado o beneficio da duvida a Francisco acredita que ele sabe mesmo o que diz 🙂 Alem de que tem o merito de ser o lider mundial que mais tem lutado pela paz entre povos.
    Por ultimo faz-me uma certa confusao a “facilidade” com que se critica a ICAR, nao porque ela esteja isenta de criticas longe disso, mas porque é facil. Por algum motivos os cristaos sao os mais perseguidos e mortos no mundo.
    Abraço Paulo

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