O elogio da torre de marfim

1. Tem altos e baixos, mas teima em não desaparecer. Falo da ideia utilitarista sobre a universidade que tem como manifestações centrais a defesa da adequação da formação às necessidades do mercado de trabalho e a promoção do slogan “as universidades ao serviço da economia e das empresas”. Associada a esta ideia, a crítica das universidades como torres de marfim, isoladas do turbilhão da vida quotidiana. É altura de virar a crítica de pernas para o ar e fazer o elogio da torre de marfim.

2. As universidades ou são torres de marfim ou não são universidades. Adequação às procuras do mercado ou subordinação às necessidades das empresas até poderão ser objetivos aceitáveis para a formação profissional de nível superior de muito curta duração. Não foram, não são e não devem ser a missão das universidades. O melhor contributo que as universidades podem dar à sociedade é desenvolveram, com a maior qualidade possível, o seu trabalho enquanto instituições de conhecimento. Enquanto instituições de conhecimento as universidades têm por objetivos o ensino, a investigação e a disseminação dos saberes.

3. O ensino só será universitário, e não formação profissional avançada, se souber combinar rigor analítico e teórico com curiosidade e imaginação, aquisição de conhecimento com desenvolvimento de competências de resolução de problemas, intelectuais ou aplicados. Só será universitário se combinar especialização com promoção de percursos de formação pluridisciplinar, universalistas. O MIT é conhecido como grande escola de engenharia, mas poucos saberão que todos os seu alunos de licenciatura estudam também humanidades, artes e ciências sociais. Não é simplesmente facto acidental, mas característica do instituto que este anuncia com orgulho na sua página oficial.

4. A investigação só será universitária se for orientada, em primeiro lugar, pela curiosidade intelectual. O elogio da utilidade do conhecimento inútil, por Abraham Flexner, tem mais de 80 anos, mas merece ser permanentemente revisitado. Recordemos parte do parágrafo inicial desse elogio: “O mundo sempre foi um lugar algo doloroso e confuso, mas poetas, artistas e cientistas ignoraram os problemas que, se tidos em conta, os paralisariam. Do ponto de vista prático, a vida intelectual e espiritual é, à superfície, uma forma inútil de atividade, à qual os homens se entregam porque buscam para si mesmos maiores satisfações do que as que obteriam de outra maneira. Neste artigo, procuro demonstrar que a procura daquelas satisfações inúteis acaba por ser, inesperadamente, a fonte de muita utilidade não imaginada”.

5. É esta torre de marfim que é vital preservar para ter sucesso no ensino como na investigação. Ligações às empresas ou às instituições públicas e sociais são relevantes, sobretudo no domínio da disseminação do conhecimento. Mas são componentes complementares e não centrais da missão das universidades, que as podem melhorar mas não as podem nem devem orientar. São úteis para todos os envolvidos enquanto forem relações entre organizações autónomas entre si que se enriquecem mutuamente apenas na medida em que conservam a sua autonomia recíproca.

6. Querem matar as universidades e a valorização do conhecimento que é a razão de ser da sua existência? É fácil, basta fazer a apologia da superioridade do conhecimento aplicado sobre o conhecimento fundamental, do conhecimento prático sobre o conhecimento teórico, da subordinação à economia em detrimento da autonomia de ensino e investigação. Acabaremos mais subdesenvolvidos do que no início, com menos capacidade para contribuir para a modernização da economia e da sociedade, com muito menos aptidão para inovar. Será que é assim tão difícil perceber que para aplicar conhecimento é necessário que comece por existir conhecimento? Talvez lendo ou relendo o conto “Profissão”, incluído na antologia Nove Amanhãs, de Isaac Asimov, seja mais fácil perceber o que está em causa e que é sempre mais bem explicado por um bom escritor.

Um pensamento em “O elogio da torre de marfim”

  1. “As universidades ao serviço da economia e das empresas”, sem grandes especulações filosóficas, produzem chusmas de futuros dirigentes ignorantes

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