Ho-mi-cí-di-o

1. A morte de Bruno Candé foi um homicídio, provavelmente com motivações racistas. O homicídio é o pior crime pessoal que pode ser cometido. Só quando em legítima defesa e com proporcionalidade se poderá falar em razões atendíveis para matar. De resto, não há boas razões para o homicídio, nem umas piores do que as outras. Portanto, por favor, parem de menorizar a morte de Bruno Candé chamando-lhe apenas crime racista e dêem-lhe o seu verdadeiro e muito grave nome: ho-mi-cí-dio.

2. Significa isto que não nos devemos preocupar com as eventuais motivações racistas do homicídio de Bruno Candé? Não. Por um lado, porque a prevenção do homicídio, em geral, requer o conhecimento das motivações da sua prática. Por outro, porque o facto de o racismo poder ser causa de homicídio é duplamente preocupante. É preocupante porque pode revelar um elevado nível de ódio associado ao preconceito. E é preocupante porque sugere poder estar em causa uma sensação de aceitabilidade da expressão desse ódio que remove a autocontenção da prática de atos violentos alimentados pelo racismo. Sobre todos estes tópicos o número de casos semelhantes não permite generalizações mas legitima a preocupação.

3. O que não legitima é qualquer conclusão sobre a extensão do racismo em Portugal. Há racismo em Portugal, em algumas das suas manifestações com regularidade e sistematicidade. E há, esporadicamente, homicídios com motivações racistas. Diz-nos mais sobre o racismo em Portugal a sua prática quotidiana, banal, às vezes brutal e violenta, do que os episódios raros de homicídio com motivações racistas. Sobretudo quando comparado com, por exemplo, o homicídio conjugal. Portanto, pare-se de menorizar o racismo acentuando as suas manifestações excecionais, e por isso facilmente menorizáveis, e centremo-nos nas suas manifestações sistemáticas ainda que menos mediáticas.

4. E não vale a pena usar este crime de homicídio para discutir se Portugal é um país racista ou um país não racista. Para ser franco, nenhuma das afirmações faz qualquer sentido. Há racismo em Portugal e há desigualdade racializada em Portugal. Para motivo de preocupação e reação estas são afirmações mais do que suficientes. A cegueira perante o racismo desarma-nos e impede-nos de o combater com eficácia. A tentativa de contra-estigmatização como racista de toda uma população acantona a luta antirracista num beco sem saída.

Um pensamento em “Ho-mi-cí-di-o”

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