A Covid19 e a queda da esquerda na realidade

No fim da legislatura passada, as forças políticas à esquerda tiveram a ilusão de que a geringonça tinha sido uma experiência datada, fazendo cada uma os seus balanços de ganhos e perdas com ela, em ritmo de autópsia.

O PS, em particular, interpretou a combinação da sua subida eleitoral com o não reforço dos setores à sua esquerda como um sinal para governar com menos constrangimentos e regressar à técnica de zigzag de antigamente, ora surfando uma oportunidade à direita, ora atuando sozinho com umas abstenções negociadas na 24.ª hora, mas sobretudo colando-se ao Presidente da República para retirar espaço ao PSD, criando um bloco central real, com a perversidade acrescida de passar-se ao lado do poder legislativo.

Por uma vez o otimismo de António Costa foi traiçoeiro. O seu plano é um governo para três legislaturas e a sua estratégia era fazê-lo em subida eleitoral permanente. Ou seja, repetir a carreira de Cavaco Silva. Mas repetiu a sub avaliação dos obstáculos que o próprio Cavaco Silva tinha feito. E, claro, não poderia antecipar que a Covid19 lhe cairia em cima. Mas qualquer perturbação séria induzida pela realidade exterior teria o efeito que teve a desaceleração económica depois de 1991 sobre Cavaco Silva.

Mas António Costa é um político competentissimo e sabe que o que já passámos com a Covid19 é apenas um prenúncio da crise social que se desencadeará a partir do fim do Verão, mesmo que a segunda vaga seja pouco intensa. Sabe que só a vacina nos trará paz e tem razões para temer que ela demore a chegar.

Neste contexto, o discurso do Estado da Nação foi um novo ponto de partida. O convite à segunda geringonça, apesar do apoio a Marcelo e do desprezo pela esquerda em todas as grandes decisões do início da legislatura é um gesto racional. Só a união das esquerdas permitirá ao PS enfrentar a crise com a plataforma política em nome da qual chegou ao poder em 2015 e em 2019. Mas este interregno dificilmente não terá feito os partidos à esquerda entender que os frágeis laços da geringonça não são suficientes para prevenir as guinadas táticas do primeiro-ministro.

Vale a pena tentar uma geringonça II, mas mandaria a prudência que tivesse uma plataforma mais forte que a primeira, o que a tornaria ainda mais difícil. António Costa faz bem em tentar. Vamos a ver se ainda vai a tempo. Oxalá vá.

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