Madeira Luís, uma formiga da liberdade

Há pessoas que nos impressionam à primeira vista e para sempre. Compreenderão todos os que conheceram Francisco Madeira Luís que, tendo tido na vida o privilégio de beneficiar do seu sorriso aberto e apesar de ter visto em diversos países e ocupações diferentes pessoas espetaculares, partilhe aqui essa impressão.

Nunca cheguei ao núcleo próximo de amigos seus. Vi-o pela primeira vez, teria eu vinte anos, num momento em que era uma espécie de secretário pessoal da Teresa Ricou (essa, a Tété) e ele e o Orlando Garcia eram ao mesmo tempo o fio que ligava à terra o projeto do que veio a ser o Chapitô e mantinham os sonhos de uma escola de circo a voar.

Reencontrámo-nos muitas vezes. Conversávamos muito, discordávamos bastante, porque ele me achava excessivamente pragmático – acho que nem se daria ao trabalho de conhecer os que me chamariam utópico – mas sorria sempre e dava verdadeiras gargalhadas quando eu, entretanto em funções governamentais e partidárias o tentava convencer de que estávamos a mudar coisas.

Tudo o que eu achava grande lhe parecia pouco – dedicando-se a coisas pequenas que achava muito grandes – e pensei muitas vezes nele e em outros como ele quando transigi com certos constrangimentos e me perguntei se era justificado aceitá-los.

Depois descobri que se tinha mudado para a minha terra. Ainda o encontrei algumas vezes em Aveiro, mas continuou a ser nas ruas de Lisboa o meu local de encontro com ele. É uma cidade grande, mas há pessoas que vivem nas mesmas margens da cidade. Ele era das pessoas que eu mais encontrava fortuitamente. Ficar-me-á na memória associado para sempre como o homem que encontrava na Feira do Livro. Acho que estava lá sempre.

Falávamos sobre tudo, nessas longas conversas que começavam sempre por acaso: os seus vidros, os cartazes que tinham ardido, as pequenas histórias da resistência ao fascismo, as insuficiências dos socialistas, as falhas das políticas culturais, os sonhos e as ilusões.

Como sabem os seus amigos, ele sofria. Sofria com a desvalorização do cartaz, depois de ter ardido a sua magnífica coleção. Sofria com o modo como os governos governavam a cultura. E partilhava esse sofrimento, até comigo, sorrindo. Hoje descobri que era apenas dois anos mais novo que o meu pai. Através de amigos que tive e tenho que são seus amigos sei que ele devia ter sido reconhecido como uma das formigas da liberdade que temos, um homem que fez sempre grandes as pequenas coisas a que dedicou a vida. E a mim me fez sentir que eram pequenas muitas coisas que as pessoas à minha volta achavam grandes.

O Madeira não era meu amigo íntimo. Eu era apenas um seu admirador a distância. E aprendi muito para a vida cívica, cultural e política com ele. Mais do que com centenas de pessoas que conheci em lugares de destaque. É a diferença que fazem as pessoas boas.

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