Salário mínimo? Lembrem-se de Ford, o dos automóveis

Há um compromisso sobre a trajetória do salário mínimo que passa pela continuação da sua subida.

As associações empresariais parecem estar prontas a rediscutir essa trajetória, tentando travar o aumento previsto. Essa visão enferma de dois erros fundamentais.

Em primeiro lugar, ao contrário do que à direita por muitos anos se fez crer, Portugal não é um país de salários insustentavelmente altos. Pelo contrário, a parte dos salários no rendimento nacional é baixa e tem vindo a diminuir. Tanto que o governo chegou a iniciar a legislatura com a ideia de discutir na concertação um plano de recuperação dos salários, que parece ter morrido de Covid19.

Em segundo lugar, a travagem imposta à economia pelas medidas de saúde pública que se revelaram necessárias contraiu fortemente a procura, externa e interna. É muito provável que neste ano e no próximo continue a haver limitações significativas à circulação, de pessoas e de mercadorias. Se nada for feito nas economias, a contração da procura arrastará a crise.

Precisamos, pois, de um choque de procura. E que sinal mais forte pode ser dado à economia para a retoma da procura do que um aumento salarial? Começar pelo salário mínimo é boa ideia. Seria bom, que mais de um século depois, os empresários não desaprendessem a lição de Ford, o dos automóveis, segundo a qual os seus lucros aumentariam com o aumento dos salários dos trabalhadores. E aumentaram, gerando essa atitude uma transformação estrutural que criou, para o bem e para o mal, a sociedade de consumo.

As economias para saírem do estado em que estão precisam de um fordismo adaptado aos constrangimentos ecológicos e capaz de maximizar os benefícios da transição digital, de um choque de procura, que é, aliás, um dado necessário para e um objetivo implícito da visão de recuperação económica que Costa Silva propôs.

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