Ainda sobre a Festa do Avante

1. Continua a saga da indignação pouco democrática com a não proibição da Festa do Avante. Foi triste ouvir partidos, políticos em exercício e comentadores pedirem essa proibição, umas vezes ao Governo, outras a uma entidade administrativa, a DGS. É lamentável que se continue a aceitar como normal e desejável a possibilidade de um Governo ou Direção-geral proibir uma atividade partidária. Uma proibição dessa natureza ofende tanto os princípios básicos da democracia, constitui um precedente tão grave de suspensão da ordem constitucional que só poderia ser concebida num quadro de estado de exceção que previsse expressamente aquela possibilidade. Tudo o resto é, simplesmente, falta de sentido democrático.

2. Claro que contrariar o clamor antidemocrático exigindo a proibição da Festa do Avante não é o mesmo que concordar com a realização desta. Desde logo, porque é real o risco desnecessário assim criado no atual estado da pandemia, em que vai ser necessário selecionar muito bem quais os riscos que terão mesmo que ser corridos. Pôr a funcionar a escola e a economia parece ter, obviamente, prioridade sobre a realização do tipo de evento promovido pelo PCP. Porém, quem concordar com esta avaliação deve pedir contas ao PCP, responsabilizá-lo pelos seus atos, não enveredar pelo caminho fácil mas irresponsável de exigir a sua proibição.

3. Comentadores de direita e de esquerda apoiaram a decisão do PCP em nome da necessidade de reinstalar um mínimo de normalidade ao lidar com a pandemia. Nada com que mais simpatize. Parece terem-se esquecido, porém, de pedirem ao PCP que clarifique a sua posição em relação às prioridades acima referidas: abrir a escola e a economia. Por exemplo, está o PCP, por uma vez, em rota de colisão com a Fenprof, a qual tem procurado, por todos os meios, impedir a abertura das escolas? Não me parece.

4. Mas continuo na mesma. Sendo irresponsável e dúplice a posição do PCP em relação à normalização desejável e possível da nossa vida em coabitação com a covide, nada permite a sua proibição sem ferir gravemente as bases do regime democrático. Independentemente da nossa apreciação sobre a Festa do Avante. Eu, que não tenho a menor simpatia pelo simbolismo daquela festa, em geral e não apenas na atual situação de pandemia, não tenho, por isso, qualquer legitimidade para aproveitar o erro do PCP e exigir a sua proibição.

5. Não gosto da Festa do Avante porque não gosto da ideia de que a militância num partido envolva mais do que a política. Transformar um partido numa comunidade em que as escolhas políticas estão associadas e escolhas noutros planos, por exemplo, no campo da expressão artística, ou mesmo da moral, é algo que repugna a minha valorização da individualização que caracteriza as sociedades modernas. Individualização que só é real se não for apenas discursiva, antes estiver ancorada numa interseção de múltiplos círculos de pertença social. A sobreposição comunitária desses círculos descamba sempre numa redução do individualismo que facilita o totalitarismo político (ou o tribalismo identitário). Nada que seja estranho à identidade comunista. Que não é a minha. Mas que eu não tenho o direito de proibir. Mas tenho, pelas mesmas razões, legitimidade para criticar.

4 opiniões sobre “Ainda sobre a Festa do Avante”

  1. Inicia com um primeiro ponto lúcido, para continuar com equívocos e opiniões dificilmente sustentáveis. De facto, a ideia que esteve subjacente à ação de muitos foi o uso da DGS para interferir na vida política do PCP. Este deu a resposta adequada. A realização da Festa do Avante, ao colocar a política no espaço público (como os organizadores do 1º de Maio e do 25 de Abril fizeram contra ventos e marés) e promovendo a fruição cultural e artística, insere-se no caminho de normalização possível da vida. Não é um “risco acrescido” na mesma medida que a ação política, cultural e social não são acrescentos à vida da comunidade.
    O autor também tropeça em alguns erros básicos. Como entender a abertura da escola e manter fechadas atividades de índole cultural?

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    1. “caminho de normalização possível da vida.” A festa do Avante nao é, de todo, a normalização possível da vida. Foi um risco desnecessário e egoísta cuja leitura politica se terá forçosamente que fazer.

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