Teletrabalho

1. Não é descoberta recente. Experiências de teletrabalho mais ou menos amplas existem desde os anos 90 do século passado, sobretudo nos EUA. Mas foi com a covid-19 que se generalizou e ganhou uma escala inexistente nas experiências do passado. Muitos dos que o experimentaram ficaram satisfeitos com a descoberta. Em parte, porque lhes permitiu lidar com os medos gerados pela pandemia. Noutra parte porque existem vantagens reais neste regime. Agora, com um pouco mais de racionalidade, que a emergência tinha colocado entre parêntesis, é altura de o discutir de modo sistemático. Até porque, sendo fenómeno minoritário antes da crise, sofre de um enorme défice de regulação.

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Desordem nas ordens

1. A Assembleia da República criou, há cerca de um ano (agosto de 2019) a Ordem dos Assistentes Sociais. Antes, porém, criou a profissão dos assistentes sociais. Sabe o que é um assistente social? Segundo a lei, a “profissão de assistente social abrange todos os profissionais que exerçam a sua atividade de serviço social.” E o que é a atividade de serviço social? Pergunta por responder. Como identificamos então um profissional de serviço social, isto é, um assistente social? Fácil. Um assistente social é um licenciado em serviço social. Ou seja, na ausência de definição da profissão de serviço social, o que na realidade define um assistente social é um diploma do ensino superior. É uma credencial e não uma atividade específica que define a profissão de assistente social. Porquê? Desde logo porque o legislador não consegue definir o ato profissional que quis proteger criando uma profissão e uma ordem. A isto chama-se, na sociologia, desde Weber, fechamento social por credencialismo.

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O elogio da torre de marfim

1. Tem altos e baixos, mas teima em não desaparecer. Falo da ideia utilitarista sobre a universidade que tem como manifestações centrais a defesa da adequação da formação às necessidades do mercado de trabalho e a promoção do slogan “as universidades ao serviço da economia e das empresas”. Associada a esta ideia, a crítica das universidades como torres de marfim, isoladas do turbilhão da vida quotidiana. É altura de virar a crítica de pernas para o ar e fazer o elogio da torre de marfim.

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Sofrer de hereditariedade

1. Numa curta novela de Steinbeck, recentemente reeditada em Portugal, o narrador apresenta-nos um dos personagens assinalando que este, “embora muito rico, não sofria de hereditariedade”. Ao contrário deste personagem há sempre, na vida real, quem sofra de hereditariedade, destacando na sua biografia o que herda quando, por desempenho próprio, pouco tem para apresentar. A consulta de entradas biográficas na Wikipedia revela que há mais perfis deste tipo do que seria de esperar, chegando alguns a ser hilariantes de tanta hereditariedade proclamada. Há, porém, outras formas de sofrer de hereditariedade, menos burlescas mas mais perigosas.

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Liberdade nas universidades

1. A decisão da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa de proibir a indicação da referência institucional dos seus professores quando estes assinam artigos de opinião levantou, uma vez mais, o problema da liberdade de expressão nas universidades. Não é um problema menor. Se há espaços em que a liberdade de expressão deve ser uma regra absoluta, a universidade é um deles. A liberdade é mesmo um requisito fundamental nos domínios do ensino e da investigação e uma condição indispensável dos processos de conhecimento e inovação.

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Odeio o discurso de ódio

1. Odeio o discurso de ódio. Odeio o discurso racista, xenófobo, homofóbico. E, quando ele se torna insuportável, apetece voltar a gritar “morte aos fascistas e a quem os apoiar”! Pergunta: gritar ou escrever “morte aos fascistas” é discurso de ódio? Dizia em tempos um jornalista que ideologia eram as ideias dos outros. E discurso de ódio, é o discurso de ódio dos outros?

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Curtas # 01

REVELAÇÃO. António Costa, do Eco, não tem dúvidas: a Noruega fica no Médio Oriente. Segundo o editor daquele órgão de comunicação, a proposta de António Costa Silva de que seja considerada a possibilidade de criação de “um fundo soberano, só pode resultar das influências orientais do gestor”. Consultando o ranking dos fundos soberanos descobre-se que o mais rico é o da Noruega, com 1186,7 mil milhões de dólares de ativos (ou 1,2 verdadeiros biliões). Conclusão, a Noruega é um país oriental.

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Homicídio de uma cidade

1. Os populistas não inventam os problemas que prometem resolver. Torcem os problemas, dão-lhes respostas indecorosas, mas não os inventam. E é porque não os inventam que, de vez em quando, têm sucesso. Um sucesso duplo. Sucesso na mobilização das suas bases de apoio, sucesso na marcação da agenda política, de múltiplas formas. Por exemplo, focando a nossa atenção nuns problemas em detrimento de outros ou dando mau nome a problemas reais, reduzindo o exercício da racionalidade no seu tratamento.

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Branca por fora, amarela por dentro e cheia de pelos

1. Os cientistas sociais não têm de ser eunucos políticos. Por exemplo, o João Teixeira Lopes é conhecido como sociólogo e como militante/dirigente do Bloco de Esquerda. Ou o Rui Pena Pires, eu: sociólogo e militante/dirigente do Partido Socialista. Ou ainda o David Justino, sociólogo e militante/dirigente do Partido Social Democrata. São filiações públicas assumidas pelos próprios de modo transparente. Por isso as nossas intervenções como cientistas sociais podem ser escrutinadas em função das nossas preferências político-partidárias.

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Migrações internacionais na era covid

A primeira era das migrações moderna terminou com a Grande Guerra de 1914-18, seguindo-se uma longa retração das migrações internacionais, as quais só retomariam o dinamismo anterior depois da II Guerra Mundial. Estaremos hoje perante uma nova pausa longa na mobilidade internacional em geral?

Para ler o resto no IDN Brief de 17 de junho de 2020 (página 8).