O Silva

Em 1984, Portugal vivia em Bloco Central e um Congresso triste da Juventude Socialista a que eu pertencia tinha-me convencido que a minha energia cívica se devia dirigir a outras paragens, quando conheci pela mão da Margarida Marques e do Porfirio Silva um grupo de gente que se dedicava à solidariedade com as lutas contra as ditaduras da América Latina, num coletivo chamado Grupo de Solidariedade com a América Latina, inserido no universo de causas internacionalistas do CIDAC dirigido por Luis Moita.

Aquelas dez pessoas que faziam o GSAL e o conjunto de pessoas que conheci naquele andar da Pinheiro Chagas, mostraram-me que a militância podia ser algo feito de dádiva e desinteresse, de generosidade e empenhamento, daquilo a que hoje chamam ativismo e nesse tempo chamávamos militância.

Nesse coletivo fiz amigos para a vida e no CIDAC tive mestres que nunca esquecerei.

Como muitas vezes acontece, há uma pessoa que nos marca especialmente, com quem nos identificamos ainda não sabemos porquê quando surgem nas nossas vidas.

No GSAL foi o Silva. Inteligente e generoso, dedicado e sensível, capaz de carregar o mundo às costas e sorrir, esse responsável por El Salvador na divisão do trabalho internacionalista a que nos dedicávamos, tinha algo que o fazia diferente.

Com os anos percebi por todos os gestos dele a que assisti, pelo que conheci da sua vida, porque me tinha identificado com aquele sorriso aberto, aquela inteligência discreta, aquela sensibilidade recatada.

Passei apenas uns dois anos no GSAL, porque a chegada de Vítor Constâncio a Secretário-Geral trouxe um novo PS à minha vida e Jorge Sampaio pesquisou naquele think-tank esquerdista quadros para refazer o departamento internacional que Rui Mateus lhe tinha deixado provocatoriamente forrado de livros de Kim-Il-Sung. Lá fomos, entre outros, o Silva e eu, participar da aventura de ser do PS nos anos do cavaquismo.

O Silva partiu pouco depois para uma carreira de sucesso na promoção do comércio internacional. Passou por Cabo Verde, Bruxelas, Londres, Paris, aliando uma grande capacidade de realização e competências diplomáticas à energia militante que sempre tivera.

Tentou levar-me para essa sua aventura de defesa de Portugal, mas nisso não o consegui acompanhar. A minha vida tinha seguido outro rumo, que desembocou cívica e profissionalmente nas políticas sociais.

Foi sempre um homem a tentar perceber o que acontecera às suas ideias e ao mundo. Não partilhei alguns dos seus fascínios como a facilidade que tinha em perdoar certas coisas à revolução cubana, tendo ele conhecido o país, por cima e por baixo, por dentro e por fora, na primeira pessoa. E talvez se tenha convertido mais à terceira via do que eu gostaria, décadas mais tarde. Mas foi sempre um homem em que o coração bateu à esquerda.

Podia ter sido membro do governo de António Guterres, mas a vida familiar não o permitia nessa altura. Tenho a certeza de que teria gostado de voltar um dia à política, mas o comboio não voltou a parar na sua estação.

A ele e ao seu grande amigo de sempre Paulo Barcia se deve a obra mais abrangente até hoje sobre o partido em que ambos militaram, o Movimento de Esquerda Socialista. Um livro que conta mais do que um partido, uma geração e uma vivência, uma certa forma de viver esses anos de Abril que só conheci pelos relatos dos amigos.

Deixou ainda um livro de conversas com o seu mentor José Fernandes Fafe, em que homens de duas gerações diferentes conversam sobre o mundo que partilharam.

Em todos os encontros me surpreendia. Um dia, há pouco tempo, contei-lhe como tinha gostado de ler “Os idos de março”, para descobrir que o traduziu para português, solitário, numa tradução que não me quis mostrar.

Mas mais do que os livros, o que António Carlos Silva, o amigo Silva, o António, deixa é a impressão com que a sabedoria, o bom-senso e a lealdade pode fazer melhores as pessoas que toca.

Partilhou a vida com a Carol (“és linda como o sol”, dizia) que põe o mesmo empenho, a mesma crença e a mesma generosidade nas suas causas. São dois seres humanos lindos.

Eu tenho o privilégio de ter sido tocado por ambos. Mas hoje é dia de falar dele. O amigo que esteve sempre comigo. A cuja solidariedade devo não terem sido tão difíceis alguns dos piores anos da minha vida.

Um dia telefonou-me a pedir um empréstimo de uma quantidade de dinheiro que eu de todo não tinha. Prometi-lhe que arranjaria o que conseguisse. Abriu a sua gargalhada e disse-me que só tinha amigos pobres, mas nem todos disponíveis a abrir mão da sua pobreza para o ajudar. Não foram poucas as vezes em que um pretenso jornalista me colocava questões difíceis, a que o político não teria prazer em responder. Só a gargalhada o traía, repito.

Passámos, em almoços regulares e em longas caminhadas, em revista as nossas vidas, o país e o mundo. Vimos mais que uma vez o futuro que viria.

Mas não vimos que um erro nas células nos impediria de concretizar o projeto que desenhámos e redesenhámos de escrever um livro de conversa entre um jovem em abril e uma criança de abril.

– O pai partiu, disse-me a Sara.

Uma boa conversa sobre populismo e democracia

Esta semana na Espantosa Realidade Das Coisas conversámos com Marco Lisi sobre populismo e democracia. Tentámos ir muito para além da conjuntura nacional e imediata e ver o fenómeno num quadro europeu e global.
Como diz o Marco, as democracias terão de lidar com o problema. Fica aqui o convite a que ouçam como o vemos.

O dilema da direita açoriana

A dicotomia esquerda-direita não resolve o problema da governabilidade açoriana. Dados os resultados eleitorais, nem a soma de deputados do PS e do BE seria maioritária, nem a soma do PSD com o CDS e o Chega. Pelo que o futuro do poder político na região dependerá dos partidos-pivot, aqueles que tanto se podem coligar com um como com outro dos grandes partidos (PPM, IL e PAN).

Coloca-se ainda uma questão prévia à direita, a da exclusão de qualquer relação com a extrema-direita, a exemplo do que fez Angela Merkel na Alemanha. Mas essa opção implicaria para o PSD açoriano a renúncia a formar um bloco com peso suficiente para tentar governar e não há nenhum sinal de que siga por esse caminho. O PSD está, aliás, num dilema entre a firmeza contra o reacionarismo do Chega e a sede de governar de novo. Para se afirmar, o PSD quer, pelo menos com Rui Rio, ser moderado e liberal. Para voltar ao poder, pode, mesmo com Rui Rio, aceitar faustianamente abrir a porta à extrema-direita e ao reacionarismo.

A aceitação do Chega no seio de um bloco de direita foi posta em marcha logo na noite eleitoral. Mas a sua possibilidade de sucesso é remota, não por causa do PSD ou do CDS, mas porque ainda assim seria preciso que todos os partidos-pivot aceitassem essa aliança e é improvável que o PAN ou mesmo a Iniciativa Liberal troquem as suas posições cosmopolitas em várias matérias e liberais nos costumes pelo poder regional. Ou seja, serão o PAN, a IL ou ambos a resolver o dilema da direita açoriana.

Um orçamento sem geringonça

No orçamento para 2021, ainda com o país a sofrer violentamente os efeitos na saúde, mas também económicos e sociais, da pandemia, o Governo tem um exercício dificílimo de conciliação entre acudir à degradação da economia do país, aos constrangimentos estruturais da situação das finanças públicas e demonstrar a necessária consciência social. Está claramente confrontado com escolhas pesadas e escolheu um caminho de equilíbrio entre realismo e sensibilidade social, que garante que 2021 será um ano, não de avanços estruturais, mas de amortecimento de impactos negativos e mitigação de problemas. O Bloco entendeu não entender esse exercício e auto-marginalizou-se de contribuir para ele ao tentar bloquear, num golpe de tesoura de aliança à direita, que o OE sequer visse a especialidade.

É certo que a seguir às últimas eleições legislativas o PS prescindiu de discutir entendimentos políticos com o horizonte da legislatura e precipitou-se numa gestão casuística de assuntos de importâncias diversas, apostando em entendimentos de geometria variável. Do ponto de vista da gestão política na conjuntura, resulta, mas enfraquece a capacidade de construir convergências.

A sobranceria do PS de há dois anos e a irresponsabilidade do BE de agora são dois maus passos para a afirmação do quadro político progressista que nos permitiria sair das dificuldades atuais com melhor coesão social em vez das respostas austeritárias aos problemas que temos.

Este orçamento necessita de ser aprovado. Os partidos têm 2021 para discutir respostas estruturais para depois da crise. Se o Governo não o tivesse percebido e não tivesse demonstrado abertura negocial teria faltado à confiança dos eleitores. Como o Bloco é, à esquerda da direita, o único a manter-se na posição intransigente de atirar o orçamento ao chão, sem sequer uma âncora argumentative forte, não é no Governo que devemos buscar a culpa para este desfecho.

Acresce que ninguém pode dizer que não se vejam de todo o lado sinais de que se os democratas escancaram as portas da cidade à extrema-direita ela se instala e progride.

Decidir, interagir, cuidar – o futuro do trabalho

Depois de as máquinas terem progressivamente diminuído o volume do trabalho na produção, o mesmo efeito está a ocorrer na produção e tratamento de informação. Com máquinas e algoritmos inteligentes, o trabalho não humano progride da ferramenta autónoma para a produção de conhecimento, empurrando os humanos para onde as máquinas estão mais atrasadas, ou seja tudo o que tem a ver com decidir, envolvendo processos complexos que cruzam racionalidade e ética, interagir, que carece de empatia e cuidar, que sendo um trabalho de produção carece de decisões orientadas pelo outro e pela interação.

A nossa regulação económica e social continua a não refletir este novo equilíbrio entre homem, máquina e algoritmo.

Este é o tema do meu artigo no DN.