As mortes em lares

Neste momento discute-se em Portugal a morte em lares devida a Covid19 como se tivessem a ver com um problema específico de um município, se devessem a alguns casos de polícia ou fossem resultado de clientelismos partidários locais.

Ninguém parece ter memória ou coragem suficiente para pôr os casos mediáticos em perspetiva e quando a Ministra Ana Mendes Godinho tentou fazê-lo caiu-lhe o Carmo e a Trindade em cima, em parte porque foi pouco prudente no modo como falou em parte porque os jornalistas que a entrevistaram parecem não ter percebido ou – alternativa menos elogiosa – não ter querido respeitar o enquadramento do que disse na realidade nacional das mortes por Covid19.

Só para recordar aos peritos espontâneos em lares, houve mais de uma dezena de milhar de mortes em excesso em lares britânicos, o que mais falhou na Suécia foi a proteção dos idosos em lar, houve enormes tragédias em lares italianos, franceses e espanhóis e a lista podia continuar.

Mas também é verdade que não podemos ser complacentes com os relatos de negligência na assistência a idosos – que também não sendo uma especificidade portuguesa – não podem em lado nenhum ficar por investigar e punir quando confirmados.

Há muitas razões para a vulnerabilidade dos lares à Covid19. Tudo começa com a vulnerabilidade das pessoas idosas e com outras condições de saúde que torna a exposição ao vírus mais letal e com o facto de que são pessoas exatamente com essas carateristicas o núcleo fundamental dos seus utentes.

Mas há fatores específicos dos lares que exigem reflexão sobre a própria organização dos cuidados.

Tudo nos lares está organizado para que haja forte contacto social – refeições em comum, amplas salas de estar coletivas, equipamentos de uso comum, quartos não individuais – e o contacto social é uma forte fonte de propagação. Imagino a quarentena num lar particularmente penosa, quando fisicamente possível.

Os lares partilham com os estabelecimentos de saúde parte dos seus profissionais e estes estabelecimentos são, como se sabe, fonte de risco acrescido de infeção. Muitos dos profissionais em contacto com idosos são pessoas com baixo nível escolar e pouca preparação específica, auferindo baixos salários.

A questão do preço dos cuidados não pode ser apagada da equação. O Estado tem procurado, na estratégia de austeridade que leva uma década, conter os custos da rede de solidariedade que custeia. Os lares privados têm a mesma pressão por causa do baixo poder de compra das famílias e da ausência de qualquer produto de proteção social obrigatória ou complementar que permita suavizar o custo dos cuidados no momento em que se necessita deles. E tudo isto nos conduz à situação bem mais grave, que agora foi atirada para debaixo do tapete pelos sedentos de escândalos políticos, da incapacidade para conter a rede de lares que funcionam sem licenças nem alvarás, em condições extremamente precárias.

Dito isto, não se deve menosprezar a responsabilidade do Estado. Não vale o argumento de que os lares co-financiados são de entidades privadas, até porque não o são a partir do momento em que recebem financiamentos públicos e têm estatuto de utilidade pública. E aqui a realidade mediática é particularmente injusta para com a Ministra Ana Mendes Godinho que, como os próprios média amplamente noticiaram, esteve no terreno e pôs no terreno os meios de diagnóstico, fez alertas vários e esteve sempre atenta ao que se passava.

É essencial combater a Covid19 com a realidade dos lares que temos. Se a indignação sazonal que por aí vai e algum oportunismo político que a acompanha tiver algum efeito lateral positivo, oxalá seja o momento para abrir uma reflexão ampla sobre o nosso modelo de prestação de cuidados a pessoas dependentes.

O que temos não é suficiente, não está devidamente coordenado, não tem os recursos públicos suficientes, nem prevê devidamente o seu custeio ao longo do ciclo de vida.

Esse é o problema estrutural. Se fosse apenas uma negligência localizada era um assunto bem mais fácil.

A Ministra Ana Mendes Godinho pode dar a volta por cima ao cerco que a atinge lançando logo que possível uma iniciativa ousada de reorganização do modelo de cuidados. E ao fazê-lo, ajudaria a resolver o verdadeiro problema, o que ninguém parece estar a ver ou a querer ver.

2 opiniões sobre “As mortes em lares”

  1. Finalmente um texto com sentido.
    Há demasiados demagogos na praça, uma grande quantidade de opinadores de ocasião que não faz ideia do que é um lar de idosos e depois os desonestos do costume que querem sangue a todo o custo.

    Gostar

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