Um orçamento sem geringonça

No orçamento para 2021, ainda com o país a sofrer violentamente os efeitos na saúde, mas também económicos e sociais, da pandemia, o Governo tem um exercício dificílimo de conciliação entre acudir à degradação da economia do país, aos constrangimentos estruturais da situação das finanças públicas e demonstrar a necessária consciência social. Está claramente confrontado com escolhas pesadas e escolheu um caminho de equilíbrio entre realismo e sensibilidade social, que garante que 2021 será um ano, não de avanços estruturais, mas de amortecimento de impactos negativos e mitigação de problemas. O Bloco entendeu não entender esse exercício e auto-marginalizou-se de contribuir para ele ao tentar bloquear, num golpe de tesoura de aliança à direita, que o OE sequer visse a especialidade.

É certo que a seguir às últimas eleições legislativas o PS prescindiu de discutir entendimentos políticos com o horizonte da legislatura e precipitou-se numa gestão casuística de assuntos de importâncias diversas, apostando em entendimentos de geometria variável. Do ponto de vista da gestão política na conjuntura, resulta, mas enfraquece a capacidade de construir convergências.

A sobranceria do PS de há dois anos e a irresponsabilidade do BE de agora são dois maus passos para a afirmação do quadro político progressista que nos permitiria sair das dificuldades atuais com melhor coesão social em vez das respostas austeritárias aos problemas que temos.

Este orçamento necessita de ser aprovado. Os partidos têm 2021 para discutir respostas estruturais para depois da crise. Se o Governo não o tivesse percebido e não tivesse demonstrado abertura negocial teria faltado à confiança dos eleitores. Como o Bloco é, à esquerda da direita, o único a manter-se na posição intransigente de atirar o orçamento ao chão, sem sequer uma âncora argumentative forte, não é no Governo que devemos buscar a culpa para este desfecho.

Acresce que ninguém pode dizer que não se vejam de todo o lado sinais de que se os democratas escancaram as portas da cidade à extrema-direita ela se instala e progride.

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